domingo, 17 de maio de 2020

No dia em que eu surtei.

Abri meus meus olhos.
Quando será liberado os abraços?

[ana carolina ~~ tempos e quarentena]


"Mas o tempo é como um rio, que caminha para o mar. Passa, como um passarinho. Passa o vento e o desespero, passa como a agonia. Passa a noite, passa o dia, mesmo o dia derradeiro" (o tempo e o rio)




sábado, 4 de abril de 2020

Revisitando o passado.

Comunicações rasas, resumidas em um comentário em uma rede social. Ninguém quer mergulhar em outro ser, e isso não é uma crítica, são tempos de nados submersos para dentro de si. As águas estão turvas, as ondas violentas, a maré não está pro pescador. Nenhum deles. Hoje o dia é o da caça, enfim chegou, os peixes seres que nos confrontam mesmo já mortos... nos olham com seus olhos de agonia. 
Se entrarmos na água, ou no instagram, vamos nos afogar. O mar não tem cabelos, e te surpreende. Nas suas profundezas, sem ar, se confrontará com seus medos e desejos.

Encontrei dentro de mim lembranças em formas de conchas. Para chegar na superfície, como tantas outras vezes, tive que, antes, curar meus machucados com o amor que me transborda. Descansando na areia, deitada, ao me ver refletida na lua, pergunto "onde eu estou, onde eu me perdi, quando não me achei". 

Nesses dias auto maternais tento responder as perguntas sem ser rígida demais na correção das respostas. Nesses dias masoquistas só procuro buscar o tesão. Na distopia do presente eu revisito o passado: nos sonhos, nas músicas, nas lembranças e nas fotos da memória sobre mim.

Aceitar que alguns laços são eternos. Outros maternos. Alguns incertos. 
Não sei. O melhor é esperar a lua virar e a maré baixar. 


[ana carolina ~~~~

Presságio

O pesadelo que se chama vida.  

Nossos sonhos são ceifados na medida que crescemos, que colocamos a capa do adulto, escura como a da dona da morte.  
_ é a conjuntura!! _ nossa racionalidade nos diz, te dando a mão para não cair no abismo.  
Mas sentada nesse sofá , eu não sei o que a responder. sei que está certa, mas também sei que estou em um labirinto, sem respostas, sem saídas.  
Só perguntas.  
_ não se cobre tanta, releve! _ diz meu amor próprio se perdendo entre a multidão .... 
Errada não está, eu sei, mas o som das suas palavras na minha cabeça fica cada vez mais longe. Só escuto bem o que aqueles, que não vou nem dizer o nome, falam pra mim:  
Você não gosta de ninguém. Você é uma pessoa difícil. Você , você , você  

Seguimos! Seguirei. 

[ana carolina ~~~01/03/2020

10 de Janeiro

Cada dia que passa eu fico mais emotiva. Uns dias atrás, um cartomante me alertou que o fim é necessário para que o novo venha. Eu gosto de finais e começos, sínteses e novas proposições. Mas sei que doí, como um espinho que entra no teu pé, e que se não tira inflama, e  a dor se espalha e toma o corpo. Saber deixar ir ... saber voar e deixar voar.  
Esse cartomante, nesse dia ( que foi de conclusão), também me alertou sobre o controle, da vida e de mim... O autocontrole inútil que queremos ter dos caminhos, seus e dos outros, como se tudo fosse matemática, planilha de uma empresa. A minha empresa, nessa analogia capitalista e pertinente nos dias sempre atuais ( desde o século xvii) estava em crise estrutural. Ano passado não foi fácil, nem pro Brasil nem pra mim, pobre jovem trabalhadora.  
Esse ano a rainha do mar já me abençoou . E eu sem empresa voltei a sonhar, ainda um pouco pragmática, afinal, nessas chegadas e partidas, eu já quase completo mais um ano,me aproximando de mais uma virada de década.  
Em outro dia, antes da virada pra década de 20, eu herdeira das sufragistas e do povo de reis e rainhas de guerra, fui interpelada por mais um aviso: a palavra tem poder. Me lembrei dos ensinamentos de toda uma vida, plantar o bem para colher o melhor. Manter-se em movimento como luz, junto aqueles que me protegem. Crente e espirituosa, já reneguei o mundo mas hoje sou confrontada na minha intimidade: quem é você ?  
E eu me pergunto quem eu sou? Não sei. Só sei que tenho orgulho de mim, de onde e como cheguei, dos caminhos que percorri entre o alvo e a seta.  
Nessas sínteses adoráveis eu me reencontro, em um patamar diferente de anos atrás, agradecida. Pelos pedidos professados pela minha boca, pelos retornos concedidos, pelos amores desejados e pelas desilusões. Nessas partidas , que já foram chegadas, eu deixo ir. Deixo retirar a planta pro solo descansar. Uma hora vai germinar . 

Ana Carolina 
09/01/2020

sábado, 4 de janeiro de 2020

Feeling Good

A registro
1. Começo essa escrita, levemente avoada, pelas penas (da tuca e bertie), pela sagrada natureza e pela cerveja gelada  que me acompanha nesse sábado quente, que eu, meio acompanhada, meio sozinha e completamente amada me encontro.
2 .Começando esse ano, vinte vinte, sem a tradicional agenda, aquela que compro sempre desda minha iniciação consciente a luta dos trabalhadores pela libertação e construção de uma nova sociabilidade.

A síntese.
Esse ano, de forma nova -ou nem tanto- o inicio, arrastando pela areia da praia o antigo ano, que consigo carrega todos os outros passados a partir de 1992. O ano que tudo aconteceu, eu nasci, de olhos atentos a vida e as suas invenções: quero aprender, quero ler, quero saber. Com uma lupa observo o mundo, e ele me observa, de modo invertido quanto a intensidade dos detalhes; para ele eu sou só mais uma, enquanto que pra mim ele é tudo, ele é tanto, quero te-lo. Como eu te quero, sim a você que me lê. Foder-te.
Nesse 2020 eu quero ter, possuir (a ti), quero. Ano passado, quando não morri (mas quase), foram várias lutas, minhas. Os lutadores se resumiam a mim, que em um contexto de extremas mudanças e saudades, me levaram a batalha final: a libertadores da emoção. Ansiedade vs Não ansiedade, mas não menos loucura. Para vencer a batalha, me conhecer foi importante. O processo do amor como cura também. Amar e deixar alguém te amar. Amar para saber dizer nãoa que você merece! Amar para saber quais os papéis sociais lhe cabem e dizer basta a misoginia e o racismo que impregna as relações sociais. Amar para redescobrir os amores e cuidar das dores. Amar -se.

A oração
Quero te foder amando, Gabriel. Agradeço a você, que por quase doze meses me deixa nervosa, me faz passar raiva, me faz. Quero seguir a minha vida como sonhei. Sem luxos, sem pobrezas. Quero estudar, como quem come com fome. Quero cuidar-me, redescobrir-me. Quero junto aos meus ter força e coragem para a seguir em frente. Com minha mamãe e minha família, velha, nova, agregada, escolhida.

Seguimos.

carola, 04/01

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Carta para Amy. (caminhos do destino)

Hoje, depois de alguns dias, falei com uma amiga muito amada. Há dias sinto a sua falta de forma latente, e mesmo racionalmente entender os caminhos que a vida nos destinou... emocionalmente eu não consigo. Vejo o seu jeito marcante nos gestos de uma outra mulher, que tem da sua mesma potência, mas ainda te falta o que te faz marcante. Espiritualmente, talvez, algo me diga que estamos sempre em conexão, profunda e eterna, e isso, que pode ser a minha mente me auto confortando, me faz compreender esses tais desígnios da vida.

Tenho muito pensado em mim e na sociedade, de como ela tritura nossos sonhos, como uma máquina de moer carne. De como ela retira a nossa pele com o corte de classe, tão afiado, que não deixa imune a ninguém. Nem ao negro mais estudioso, ou aquele que é confundido com um bandido na loja de marca. Tenho refletido sobre as minhas frustrações, deixando despidos os meus medos e certezas, e por muitas vezes no relento, com frio. Viver de "mentiras sinceras" é impossível por muito tempo. E a verdade dói, e te deixa envergonhada, mesmo libertadora.

Estranho que... bom, essa carta que escrevo é pra você. E eu fico revoltada por vezes achando que você não quer saber de mim, ou alguém a impede, mas todos possuem a escolha. e é você! Se tornou hostil a mim, e ao meu mundo, só pode! Alimenta uma rotina que me exclui!
Ou eu me excluo da sua rotina, porque eu, porque da caminhada, porque dos meus afazeres...  Ai a revolta sai e a culpa entra em cena. Eu sei que falho, e como! Eu sei, eu sei, eu sei. eu sei.

Eu sei, isso é só a vida. Cada um na sua rotina e batalha. É isso, é racional. São as escolhas que cada uma faz, os compromissos que assumimos. Sim, é racional.
Mas você não vai ouvir o que está nessa carta pela minha voz. A partir do meu gestual, da minha manha. da minha sofrência. Talvez, um dia você até a leia. e ta tudo bem, mesmo não estando.

Há quinze dias eu sai com uma mulher muito parecida com você... e com os olhos fechados e mão levantada ela cantava. Muita saudades de você. Que possamos nos autocuidar nos nossos passos, e que nossos corações continuem conectados no amor. Eu sigo no meu processo constante de cura, de aceitação e de luta. Espero que você siga bem, tranquila.

Amo você. e eu entendo. Já não acho pra você a nossa amizade não é importante.
Porque ela é, e sempre será.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

6 meses.

Descobrir as certas sutilezas diárias, em seus hábitos escondidos, desabrocharem como um botão de uma rosa, que você rega, que você cuida, e que de repente floresce. Cortar as cebolas ao som do celular, tomando um copo de cerveja e tragando o silêncio de estar sozinha. Tomar um chá quente no final de um dia corrido e escrever as suas obrigações ao som dos prazos, que não são seus aliados, mas te dão o norte. Fumar as ervas divinas, tão finas, misturadas com as toxinas que só um produto ilegal pode oferecer; deitar e amar. Amor camarada. Amor que sai das cobertas e se alonga na frente do espelho. Amor que desce as escadas e faz o café, volta para o quarto, e rega as plantas filhas de um quarto bem amado. Amor que se descobre nas noites, aflita, agitada, agoniada. Amor que tem dúvidas, que se cobra, que se permite, que ultrapassa dentro dos seus próprios limites. Impostos. Sem democracia, com muita história, daqueles que deram o sangue, o sêmen, o ventre, a vida. 

Descobrir individualidades na trajetória coletiva. De ser, poder e desejar você. Desejo selvagem. Desejo, do novo, do aprender, de iluminar o desconhecido. Desejo de desenhar a noite, vendo o molde na internet. Desejo de se tocar e sentir arrepios. Desejos de intensidade transformadora. Desejos que provocam fotofobia pra quem vê sem os olhos certos. Desejos que só se realizam plenamente no coletivo, no caminho de volta, sem volta, para dentro de si. O individual também é o outro e pro outro ele volta expandido como a aquarela no papel.

Descobrir que o dia quando amanhece ainda é noite. E que na noite podemos ser dia, e sonhar. E eu amor-desejo-sonho a todo instante. Mas aprendo a todos os dias uma forma diferente. A cada década uma grande descoberta. A cada fase um pouco mais profundo chega a minha mão ao centro da terra. E nos mergulhos, que há muito eu não dou, eu sinto a mesma alegria adolescente de ouvir um artista novo, de um estilo ousado. Nas tempestades que caem em alguns dos dias, eu me molho com o mesmo sorriso da infância, curiosa, aprendendo a ler. Nos vendavais que cercam a minha vida, envergo, quebro e me colo, andando saltitante por ai.

Descobrir que a maturidade, mesmo parida, segue desnuda esperando se alimentar.

"Não sou nada./ Nunca serei nada./ Não posso querer nada./À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.". (Fernando Pessoa)

[ana carolina~~]